sábado, 11 de junho de 2016

Bolachas desumanizadas

Foram dizer-me que a plantavam. Havia de nascer outra vez, igual a uma semente atirada àquele bocado muito guardado de terra. A morte das crianças é assim, disse a minha mãe. O meu pai, revoltado, achava que teria sido melhor haverem-na deitado à boca de deus. Quando começou a chover, as nossas pessoas arredadas para cada lado, ainda vi como ficou ali sozinho. Pensei que ele escavaria tudo de novo com as próprias mãos e andaria montanha acima até ao fosso medonho, carregando o corpo desligado da minha irmã.
Éramos gémeas. Crianças espelho. Tudo em redor se dividiu por metade com a morte.

A desumanização - Valter Hugo Mãe

Se isto não é o inicio de livro mais triste de sempre, não sei qual será.

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